POR Raquel Luiza,
HIDROCEFALIA
A hidrocefalia é um distúrbio neurológico caracterizado pelo desequilíbrio entre a produção e a absorção do líquido cefalorraquidiano (LCR). Como consequência, ocorre acúmulo excessivo de LCR no sistema nervoso central (SNC), levando à dilatação dos ventrículos cerebrais e, na maioria dos casos, ao aumento da pressão intracraniana (exceto na hidrocefalia de pressão normal).
Esse aumento de pressão comprime o parênquima cerebral adjacente, podendo romper junções das células ependimárias e provocar edema intersticial periventricular, comprometendo o funcionamento neurológico.
Fisiologia do Líquido Cefalorraquidiano (LCR)
O LCR é produzido principalmente pelos plexos coroides localizados nos ventrículos laterais. Seu trajeto ocorre da seguinte forma:
- Dos ventrículos laterais, passa pelo forame interventricular (forame de Monro) até o terceiro ventrículo;
- Segue pelo aqueduto cerebral (aqueduto de Silvio), localizado no mesencéfalo, até o quarto ventrículo;
- A partir do quarto ventrículo, escoa para o espaço subaracnoide pelos forames de Luschka (laterais) e Magendie (mediano);
- Após circular pelo espaço subaracnoide envolvendo cérebro e medula espinhal, o LCR é reabsorvido nas granulações aracnoideas (granulações de Pacchioni), alcançando a circulação venosa sistêmica.
A causa mais comum da hidrocefalia é a obstrução do fluxo do LCR.
Classificação
🔹 Hidrocefalia Não Comunicante (Obstrutiva)
Ocorre quando existe um bloqueio dentro do sistema ventricular, impedindo que o LCR alcance o espaço subaracnoide.
Principais causas:
- Estenose congênita do aqueduto de Silvio;
- Atresia dos forames de Luschka e Magendie;
- Tumores cerebrais;
- Hemorragia intraventricular.
🔹 Hidrocefalia Comunicante
Nesse tipo, o LCR consegue sair dos ventrículos, porém há dificuldade na sua reabsorção ao nível das cisternas subaracnoideas ou das granulações aracnoideas.
Principais causas:
- Meningite;
- Hemorragia subaracnoidea;
- Carcinomatose meníngea.
Sintomatologia
Em crianças
Como as suturas cranianas ainda não estão completamente fechadas, o aumento da pressão leva à expansão do crânio.
Sinais e sintomas incluem:
- Irritabilidade e choro frequente;
- Macrocefalia (aumento do perímetro cefálico);
- Dilatação das veias do couro cabeludo;
- Abaulamento das fontanelas;
- Som timpânico à percussão do crânio (sinal de MacEwen);
- Atraso no desenvolvimento neuropsicomotor;
- Letargia;
- Incontinência urinária.
Em adultos
Como o crânio é rígido, o aumento do LCR leva rapidamente à síndrome de hipertensão intracraniana:
- Cefaleia (frequentemente matinal);
- Náuseas e vômitos;
- Papiledema ao exame de fundo de olho;
- Diplopia (visão dupla).
Diagnóstico
O diagnóstico é realizado por exames de imagem, principalmente:
- Tomografia computadorizada (TC);
- Ressonância magnética (RM).
Esses exames permitem identificar a dilatação ventricular e, na maioria dos casos, determinar a causa da hidrocefalia.
Tratamento
O tratamento é essencialmente cirúrgico.
Sempre que possível, deve-se corrigir a causa primária da obstrução. Quando isso não é viável, utilizam-se técnicas de derivação do LCR (shunts), que desviam o excesso de líquido para outra cavidade do corpo.
Os principais tipos são:
- Derivação ventrículo-peritoneal (DVP) – mais utilizada;
- Derivação ventrículo-atrial;
- Derivação ventrículo-pleural.
Outra opção terapêutica, em casos selecionados, é a ventriculostomia endoscópica do terceiro ventrículo.
⚠️ Alerta
A hidrocefalia é uma condição neurológica potencialmente grave e que pode evoluir rapidamente, especialmente em crianças. O diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado são fundamentais para prevenir complicações neurológicas permanentes.
Ao observar sintomas como aumento do perímetro cefálico em crianças, dores de cabeça persistentes, vômitos frequentes, alterações visuais ou mudanças no comportamento, é indispensável procurar atendimento médico.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educativa. Ele não substitui avaliação clínica, diagnóstico ou tratamento realizados por profissionais qualificados, como médicos neurologistas, neurocirurgiões ou pediatras.
A saúde neurológica exige acompanhamento especializado.
Referências
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- Kahle, K. T., Kulkarni, A. V., Limbrick, D. D., & Warf, B. C. (2016). Hydrocephalus in children. The Lancet, 387(10020), 788–799.
- Adams, R. D., Fisher, C. M., Hakim, S., Ojemann, R. G., & Sweet, W. H. (1965). Symptomatic occult hydrocephalus with normal cerebrospinal-fluid pressure. New England Journal of Medicine, 273, 117–126.
- Bradley, W. G. (2015). CSF flow in the brain in the context of
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